Ex-executivo da Chilli Beans cria marca de óculos sob demanda em 3D e mira 250 franquias com sócio da Espaçolaser
Com investimento de R$ 1,2 milhão no desenvolvimento, a Yoface opera sem estoque físico tradicional e projeta R$ 500 milhões de faturamento até 2029
Clipagem
19 de agosto de 2026
O empresário Paulo Morais, cofundador e ex-CEO da Espaçolaser, comprou uma fatia minoritária da Yoface, marca de óculos personalizados fabricados por impressão 3D. O negócio foi fechado há duas semanas por meio da holding PG&MP Investimentos, controlada por Morais. A Yoface foi fundada em 2019 pelo empresário Ivan Cavilha, ex-executivo da Chilli Beans, e projeta chegar a 250 lojas no Brasil em 36 meses, com faturamento total estimado de R$ 500 milhões.
A chegada de Morais acontece cerca de um ano depois da entrada de Carol Paiffer, investidora do Shark Tank Brasil e fundadora do Hub Dinastia, que aportou recursos na Yoface após a passagem da marca pelo programa. Os dois investidores não revelam os valores aportados nem o percentual de participação que detêm na empresa. Morais assume a posição de conselheiro, com atuação estratégica, e diz ter a possibilidade de aumentar sua cota na sociedade.
Paiffer diz que decidiu investir depois de avaliar o histórico de Cavilha no setor ótico e enxergar potencial de escala no negócio. A relação entre os dois motivou a mudança que trouxe Morais para a sociedade: o novo sócio já integrava o conselho consultivo do Hub Dinastia, ecossistema de aceleração de negócios da investidora, quando as conversas sobre a Yoface começaram.
Segundo Paiffer, desde o aporte, a empresa refez o plano de negócios e passou a estudar linhas voltadas ao público infantil, área em que ela diz ter interesse pessoal por ter começado a usar óculos aos 11 anos.
A Yoface produz óculos de grau e de sol sob encomenda: em vez de manter estoque de armações prontas, a empresa fabrica cada peça depois que o cliente faz o pedido, a partir de um escaneamento do rosto feito por tecnologia própria. As armações são impressas em 3D e depois passam por etapas de acabamento, coloração e montagem. Segundo Cavilha, o modelo elimina a necessidade de manter centenas de óculos em estoque nas lojas — uma ótica tradicional costuma operar com pelo menos 600 unidades expostas, segundo o fundador.
Cavilha atuou por mais de duas décadas no setor óptico, incluindo uma passagem de dois anos pela Chilli Beans, onde liderou um projeto de óculos de grau para as óticas da rede e acompanhou de perto a operação de franquias da empresa. Foi nesse período, segundo ele, que passou a dar mais atenção à forma como uma franquia capta e converte candidatos, conhecimento que hoje aplica na Yoface.
Fundou a empresa em 2019 e levou cinco anos para validar a tecnologia de impressão das armações: segundo ele, o desenvolvimento consumiu cerca de R$ 1,2 milhão, valor bancado pelos próprios sócios, até a empresa considerar o processo maduro, em 2024.
Parte do investimento foi destinada ao pós-processamento das peças — etapa de acabamento e coloração que Cavilha aponta como um dos principais desafios técnicos enfrentados até chegar ao produto atual. Hoje a empresa tem cerca de 60 modelos para adultos e 15 para o público infantil em seu catálogo, além de opções de customização de cor e gravação de nome nas hastes.
Antes de vender franquias, a Yoface vai testar o modelo em unidades próprias. Três quiosques devem ser inaugurados neste ano em shoppings de São Paulo voltados às classes B e C, além de uma loja dentro do Hub Dinastia.
Só depois desse período de testes a empresa pretende definir o valor do investimento inicial cobrado de franqueados. Cavilha projeta faturamento médio de R$ 80 mil por mês para cada unidade franqueada, com retorno do investimento em cerca de 18 meses — números que, segundo ele, ainda serão ajustados conforme as lojas próprias entrarem em operação.
Os óculos da Yoface custam entre R$ 350 e R$ 900, a depender de coleção e nível de personalização, segundo Cavilha. A produção é feita em uma fábrica em Camaçari (BA), com capacidade instalada de 6 mil óculos por mês. As lojas devem ocupar espaços pequenos — a partir de um totem de cerca de 1,80 metro de altura por 1 metro de largura, usado para a prova virtual dos óculos, podendo chegar a unidades de até 3 por 3 metros.
Para Morais, o principal atrativo do negócio é a ausência de estoque físico, o que reduz o capital necessário para abrir e manter uma unidade. "A inexistência de estoque retira um importante custo de capital do negócio, além de eliminar a questão de perdas com metragem e pontas de estoque", diz. Segundo ele, a experiência à frente da expansão da Espaçolaser — hoje com mais de 850 unidades — deve ajudar a estruturar processos de seleção e treinamento de franqueados, além dos critérios de atendimento da rede.
A ausência de estoque nas lojas é apontada pelos três sócios como a principal vantagem do modelo frente a redes tradicionais, mas também é vista como um ponto de atenção: sem armações prontas para entrega imediata, a compra depende da adesão do cliente a um processo de escaneamento facial e de um prazo de produção. Paiffer também cita o risco de concorrentes replicarem o formato sem a mesma qualidade — o que a leva a defender investimento em identidade de marca e relacionamento direto com o consumidor como forma de diferenciação.
O mercado óptico brasileiro movimentou R$ 28,1 bilhões em 2025. No primeiro semestre deste ano, o setor faturou R$ 14,07 bilhões, ante R$ 13,98 bilhões no mesmo período do ano passado, uma alta de 0,7%, segundo a Associação Brasileira da Indústria Óptica (Abióptica). Diante do desempenho, a entidade revisou a projeção de crescimento para 2026, que inicialmente era de 5,2%. Agora, trabalha com três cenários: alta de 1,8%, com faturamento de R$ 28,47 bilhões; de 2,9%, chegando a R$ 28,77 bilhões; e de 3,9%, com R$ 29,07 bilhões.
O setor reúne 71.226 pontos de venda e emprega mais de 190 mil pessoas no país. Ao ano, são comercializados cerca de 106,5 milhões de óculos no Brasil. Apesar do tamanho do mercado, a Abióptica estima que 35 milhões de brasileiros precisam de correção visual, mas não utilizam óculos.
A entidade também aponta a concorrência de produtos falsificados e de origem ilegal como um dos desafios estruturais do segmento. Mais de 53 milhões de óculos ilegais são vendidos por ano no país, o equivalente a cerca de metade do volume comercializado. Segundo a Abióptica, o mercado irregular provoca perda de arrecadação, amplia a concorrência desleal e pode representar riscos à saúde visual.
Para Cavilha, o maior desafio da Yoface agora é de execução: transformar a tecnologia desenvolvida nos últimos anos em processos replicáveis para franqueados. "Precisamos gerar valor para o nosso franqueado. Queremos que o empreendedor que escolha uma franquia Yoface tenha um negócio relevante e saudável", diz.
Fonte: Pequenas Empresas & Grandes Negócios
