Juros altos e queda no fluxo de consumidores pressionam varejo brasileiro
Clipagem
19 de agosto de 2026
Casas Bahia, Marabraz e Grupo Toky recorrem à recuperação judicial em meio ao crédito restrito, enquanto movimento nas lojas recua e endividamento das famílias atinge nível recorde.
O varejo brasileiro atravessa um período de maior pressão financeira, marcado por juros elevados, restrição de crédito e redução do fluxo de consumidores nas lojas físicas. Empresas de atuação nacional ligadas principalmente aos segmentos de eletrodomésticos, eletroeletrônicos, móveis e decoração estão entre as mais afetadas pelo atual cenário.
Casas Bahia, Marabraz e Grupo Toky, controlador das marcas Tok&Stok e Mobly, estão entre as companhias que recorreram recentemente à Justiça em busca de proteção contra a execução antecipada de dívidas e pedidos de falência. O movimento ganhou força na virada para o segundo semestre, após o período de política monetária restritiva elevar as despesas financeiras das empresas.
Apesar do ciclo de redução dos juros já ter começado, a Selic permanece em 14% ao ano, enquanto a inflação acumulada em 12 meses está em 4,4%, próxima ao teto da meta oficial. O atual ciclo de cortes teve início em março, quando a taxa básica passou para 14,75% ao ano, seguido por outras três reduções de 0,25 ponto percentual, em abril, junho e agosto.
O cenário de dificuldades também aparece nos números de recuperações judiciais. Em 2025, 2.466 empresas estiveram envolvidas nesses processos no Brasil, crescimento de 13% em relação às 2.184 registradas no ano anterior e o maior número da série histórica da Serasa Experian.
Entre os consumidores, o endividamento também pressiona o setor. Atualmente, 82% das famílias estão endividadas, maior percentual da série histórica da Confederação Nacional do Comércio (CNC), com comprometimento de renda próximo de 30%.
Dados do Índice de Performance do Varejo (IPC), da HiPartners, reforçam o ambiente desafiador. Em julho, o fluxo de consumidores nas lojas de shopping caiu 2% em relação ao mesmo período de 2025. Nas lojas de rua, a retração foi mais intensa, de 12,6%.
Apesar da menor circulação, o faturamento cresceu nos dois formatos, movimento associado à elevação do tíquete médio. Segundo a HiPartners, o indicador apresentou alta geral de aproximadamente 0,8%, com avanço de 1,5% nas lojas de rua e de 2,5% nos shoppings. No cenário nacional, porém, o faturamento do varejo registrou queda de 0,2% em julho.
A situação da Casas Bahia tornou-se um dos principais exemplos do atual quadro de estresse financeiro. Segundo relatório do JPMorgan, o pedido de recuperação judicial da companhia cita dificuldades para obter linhas de crédito de curto prazo destinadas ao capital de giro e um mercado de crédito restrito entre os fatores que contribuíram para a deterioração financeira. As ações da varejista chegaram a cair mais de 33% na segunda-feira (16).
O banco avaliou que o caso não deve ser generalizado para todo o setor, mas representa um alerta para varejistas que precisam refinanciar dívidas de curto prazo e apresentam balanços mais pressionados. Na avaliação do JPMorgan, o cenário também pode melhorar a posição competitiva do Magazine Luiza, principalmente no varejo físico, no qual disputa mercado com a Casas Bahia.
A crise também chegou à Marabraz, rede especializada em móveis populares com mais de cinco décadas de atuação. A companhia entrou com pedido de recuperação judicial neste mês e afirmou que pretende reestruturar sua operação, organizar compromissos e preservar empregos e relações com clientes, fornecedores e parceiros.
O Grupo Toky, que controla Mobly e Tok&Stok desde 2024 e pediu recuperação judicial em maio, registrou prejuízo líquido de R$ 232,7 milhões no segundo trimestre. Em cinco meses, até maio, a companhia reduziu em 15,6% o quadro de funcionários das duas marcas, com saldo de 400 postos de trabalho a menos. As ações do grupo acumulam queda de 92% em 2026 e de 94% em 12 meses.
Os indicadores também mostram diferenças importantes entre as regiões do país. O Centro-Oeste registrou crescimento de 37,5% no fluxo das lojas físicas e alta de 1,12% no faturamento. No Sul, apesar da queda de 1,5% na visitação, as vendas avançaram 6,2%. O Sudeste teve redução de 5,6% no fluxo, mas crescimento de 2,09% no faturamento.
No Norte, a circulação de consumidores recuou 31,2%, enquanto o faturamento avançou 0,47%. Já o Nordeste apresentou comportamento inverso: o fluxo aumentou 7,6%, mas o faturamento caiu 5,04%, evidenciando um desempenho desigual do varejo entre as diferentes regiões brasileiras. Materialde referência geográfica
*Com informações da Bloomberg
Fonte: LIDE
