O nome da empresa não é Piada, mas pode ser a Alma do Negócio. Prepare o café (ou a cachaça), pois o que você tem em mãos não é um artigo, é um manifesto da alma brasileira.
Do Império das Marcas ao Protesto do “Sem Nome” – Um Mergulho no Brasil onde o Registro é uma Arte
É a certidão de nascimento de um país que as faculdades de economia tentam esconder atrás de planilhas, mas que o porteiro e o dono da quitanda conhecem por nome e sobrenome — geralmente com um duplo sentido que faria Freud pedir um Gardenal.
No Brasil, o CNPJ tem dente, tem carisma e, acima de tudo, tem uma vontade incontrolável de fazer você rir enquanto passa o cartão de débito. Esqueça os manuais de identidade visual de Manhattan; aqui, o que vale é a placa de zinco e o carimbo da Junta Comercial que, num dia de sol, deixou passar o que o mercado financeiro chamaria de “catástrofe”, mas que a gente chama de genialidade.
O Juiz do Batismo: O Que Diz a Junta Comercial
Para entender como pérolas da criatividade ganharam o mundo, precisamos entender o “cartório de nascimento” das empresas. A Junta Comercial é o árbitro desse jogo, operando sob regras que definem a identidade oficial e a popular de um negócio:
- Razão Social (O Nome no RG): É o nome oficial, o “nome de batismo” que vai nos contratos e notas fiscais. Ele precisa seguir o princípio da Veracidade e da Novidade. Você não pode registrar um nome igual a outro já existente no mesmo estado. Além disso, a Razão Social deve, obrigatoriamente, indicar o que a empresa faz (o objeto social).
- Nome Fantasia (O Apelido de Guerra): Aqui é onde a mágica acontece. O Nome Fantasia é como a empresa se apresenta no letreiro, na fachada e no Instagram. A regra é mais flexível, mas não é terra sem lei.
- O Que Não Pode: Não se pode usar nomes de órgãos públicos, siglas de entidades famosas ou termos que induzam o consumidor ao erro sobre o que você vende. O baixo calão é proibido, mas o brasileiro é o mestre do “limiar”. Se o termo for um sobrenome real ou uma expressão técnica do setor, o analista muitas vezes carimba o papel com um sorriso no canto da boca e deixa a vida seguir.
O Guardião do Olimpo: O INPI e a Blindagem do Patrimônio
Depois de navegar pelo mar da criatividade e contornar os recifes da burocracia, chegamos ao porto seguro: o INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial). Se a Junta Comercial registra o nascimento, o INPI é quem emite a “escritura” do nome da sua empresa. Sem ele, o seu sucesso é um castelo de areia esperando a próxima maré.
Para uma pequena empresa, o registro é a garantia de que ninguém vai roubar o seu “trocadilho de ouro” depois que você investiu anos na fachada. Para as médias, é a chance de virar franquia e licenciar o nome com segurança. E para as grandes, a marca deixa de ser apenas um nome e passa a ser um ativo financeiro que, muitas vezes, vale mais do que todos os prédios e máquinas da companhia juntos.
O processo de registro no INPI é uma jornada de paciência e estratégia. Tudo começa com uma Pesquisa de Viabilidade profunda, para garantir que o seu “Hakuna Matata” ou o seu “Seu Toba” não está pisando no calo de um registro anterior na mesma classe de atividade.
O registro pode ser feito por qualquer pessoa física ou jurídica, diretamente no portal do instituto, seguindo quatro passos essenciais:
- Acompanhamento da Classificação: Definir exatamente em qual categoria (NCL) seu serviço se encaixa.
- Pagamento da GRU: O custo inicial, que para pequenos empreendedores conta com descontos generosos.
- Pedido de Registro: O envio formal de logotipos e nomes.
- Vigilância: O acompanhamento semanal da “Revista da Propriedade Industrial” (RPI) para garantir que ninguém conteste o seu pedido ou tente registrar algo igual logo em seguida.
Registrar a marca é o ato final de quem leva a brincadeira a sério. É a diferença entre ter um letreiro engraçado e ser o dono de uma propriedade intelectual. Afinal, no Brasil, “dono da marca é quem registra primeiro”, e essa proteção é vital para empresas de qualquer porte.

Para o pequeno, evita que o vizinho roube a ideia; para o médio, permite franquear; e para o grande, transforma o nome em um ativo financeiro valioso. Sem o INPI, o sucesso é um castelo de areia. É essa segurança jurídica que permite que nomes audaciosos saiam das mesas de bar e conquistem as cidades, reforça Gabriel Moreira, da Cordeiro Moreira Advogados.
Num tom firme de advogado, Gabriel explica que é fundamental entender que nem toda marca engraçada pode ser registrada. “O caso da Laputaria é um exemplo claro disso. Apesar de ser uma ideia criativa e que fez sucesso, o INPI considerou que a marca se esbarrava em questões de moral e bons costumes, impossibilitando seu registro. Isso mostra que, mesmo as propostas mais inovadoras e divertidas, precisam estar alinhadas com as normas e valores da sociedade”, ressalta o advogado em sua explicação.
O que fica mais claro ainda é que, ao pensar em registrar uma marca, é essencial avaliar não apenas a originalidade, mas também como ela será recebida no contexto cultural e legal do país. Assim, a proteção da propriedade intelectual se torna uma ferramenta poderosa para transformar ideias em negócios sustentáveis e respeitados, justifica Gabriel Moreira.
O Caso Emblemático: Rola Bosta Desentupidora
Um exemplo clássico dessa “malícia aprovada” é a Desentupidora Rola Bosta. Sediada em Belo Horizonte, no bairro Granja de Freitas, a empresa transformou o que poderia ser um tabu em um marketing de guerrilha imbatível.
A história conta que o nome surgiu de uma necessidade real: um profissional experiente — hoje com mais de 35 anos de estrada — ouviu o filho de um cliente, de apenas 5 anos, gargalhar diante de um vaso entupido exclamando: “Rola bosta, rola bosta!”. A sacada foi imediata.
Com mais de 14 anos de CNPJ aberto, a empresa prova que o nome grava na mente do consumidor, mas o serviço é sério: possuem licença ambiental, estação própria de tratamento de efluentes e atendimento 24 horas para residências e indústrias. É a prova de que em BH, se o problema é feio, o nome pode ser também, desde que a solução seja impecável.
O Convento do Capital: As Regras da SUSEP e do Setor Financeiro
Se a Junta Comercial é a festa de rua, a SUSEP (Superintendência de Seguros Privados) é um jantar de gala em absoluto silêncio. No Setor Bancário Sul, em Brasília, onde o ar é rarefeito de tanta seriedade, a piada não entra no estatuto. As regras para o setor financeiro são draconianas. Enquanto você pode registrar um bar como Tribunnal ou Tô no Trabalho para enganar o cônjuge, uma corretora de seguros precisa ser tão transparente quanto um cristal:
- Identificação Obrigatória: O nome deve conter termos específicos como “Seguradora”, “Corretora de Seguros” ou “Previdência”.
- Nada de Ambiguidade: Esqueça o marketing de duplo sentido. Se o nome sugerir que o risco é menor do que realmente é, ou se for jocoso demais, a SUSEP veta na hora. Eles operam sob o princípio da proteção ao consumidor. Ali, a seriedade é o único lastro permitido. Imagine a reação de um técnico da SUSEP ao tentar registrar a “Seguradora Ih, Bati!” ou a “Corretora de Seguros Tá Tudo Dominado”. O sistema simplesmente não permite o riso onde mora o risco.
A Cadência do Tempo: O Mercado de Luxo
Por outro lado, quando subimos a escadaria do mercado de luxo, as regras do jogo mudam novamente. Aqui, o silêncio, a herança e o mistério valem mais do que o impacto imediato. O luxo não grita; ele sussurra para quem sabe ouvir.
É uma dinâmica de exclusividade onde o nome da marca não busca o riso, mas o respeito e a aspiração. Para Moyzes Rosgrin Netto, da Rito Charutaria “Marcas diretas ou engraçadas funcionam muito bem quando o objetivo é atenção imediata. No luxo, assim como no charuto, o valor não está no impacto rápido, mas no tempo que ele pede para ser compreendido.”
Mas, como o Brasil é a terra dos contrastes, até no setor de alimentação saudável encontramos espaço para a irreverência que gera conexão.
Suvaco: O Suco que Refresca com Ousadia
A Suvaco (uma fusão de “Suco” e “Vaco”), marca de sucos naturais prensados a frio, é a prova de que um nome “estranho” pode ser a chave do sucesso se vier acompanhado de qualidade. Atualmente, a rede opera com 6 unidades em pontos estratégicos de São Paulo, incluindo locais como o Shopping Vila Olímpia, Vila Madalena e Pinheiros. O diferencial aqui é a quebra de expectativa: o nome causa o impacto inicial, mas a experiência do produto (natural, sem açúcar e prático) é o que fideliza o cliente, provando que a ousadia no batismo é um atalho poderoso para o reconhecimento de marca.
Hakuna Batata: Entre o Suáili e o Sabor Mineiro
É no contraste entre o rigor de Brasília e a criatividade das calçadas que surge o fenômeno Hakuna Batata. Atualmente, são 42 lojas (41 espalhadas por Minas Gerais e uma unidade em Itaperuna, no Rio de Janeiro). O império mineiro da batata é uma aula de branding e filosofia. A expressão “Hakuna Matata” tem origem no idioma suaíli (swahili), uma língua africana falada principalmente em países do leste da África, como Quênia, Tanzânia e Uganda. No suaíli:
- Hakuna significa “não há”
- Matata significa “problemas”
Ou seja, “Hakuna Matata” quer dizer literalmente “não há problemas”. Embora popularizada pela Disney, sua origem é uma visão de mundo africana genuína, ligada a uma filosofia de simplicidade, resiliência e leveza diante da vida, muito presente nas comunidades que falam suaíli. O mineiro, sagaz por natureza, pegou essa filosofia milenar de “está tudo bem, vai dar certo” e a colocou dentro de um cone de batata frita com cheddar. O risco jurídico de enfrentar um camundongo bilionário nos tribunais é real, mas o dono das 42 lojas sabe que o povo prefere a “resiliência da batata” do que o rigor do direito autoral — onde os problemas existem, mas não precisam dominar o momento presente.
Sorveteria Sem Nome: A Saga da Hébom e o Legado de Sabor
A história da “Sorveteria Sem Nome” é uma saga de sucesso, protesto e nostalgia no Brasil dos anos 80 e 90. Tudo começou nos anos 70, quando o empresário Luís Fernando Martins criou a fábrica de sorvetes Hébom (É Bom). A empresa alcançou grande popularidade, especialmente no Rio de Janeiro, com sabores deliciosos como coco queimado e tamarindo. No entanto, o sucesso incomodou a gigante multinacional Kibon, que em 1979 entrou na justiça para forçar a mudança do nome, o que foi acatado.
Como resposta e protesto, a Hébom lançou seus sorvetes com a marca “Sorvete Sem Nome”, usando a situação para fazer propaganda e divulgando notas oficiais sobre a “injustiça”. A estratégia de marketing criativo funcionou maravilhosamente bem e a marca chegou a aparecer em novelas. Apesar do sucesso viral, a empresa enfrentou dificuldades nos anos 90 e acabou indo à falência. Mas o “Sorvete Sem Nome” permaneceu vivo na memória afetiva. Em 2025, a lenda retornou com 3 unidades estratégicas no Rio, provando que o “não-branding” é a maior prova de pureza em um mundo de rótulos vazios.
Loja do Seu Toba: O Império Varejista da Variedade
O que poderia ser apenas um trocadilho de bairro transformou-se em uma potência varejista em plena expansão. A Loja do Seu Toba, baseada no sobrenome real do proprietário de origem libanesa, é hoje uma rede com pelo menos 5 unidades em Guarulhos (como na R. Brg. Mário Perdigão e Av. Otávio Braga de Mesquita). O império também alcançou Suzano, Parelheiros, Caraguatatuba e o centro de São Paulo. O sucesso mostra que o consumidor já superou o trocadilho; hoje, o cliente busca o “Seu Toba” pela economia em utilidades e eletrônicos. É o sagrado direito ao sobrenome transformado em uma máquina de vendas.
Nelson Chamma: O Convite do Além em Corumbá
O ciclo da vida no Brasil também tem seu quinhão de surrealismo. Em Corumbá (MS), o Cemitério Nelson Chamma desafia a seriedade do luto. O nome homenageia um médico ilustre, mas a leitura fonética no bairro Nova Corumbá é inevitável. Em um momento de dor e preocupação, ler “Nelson Chamma” traz a sensação de que o além está nos “chamando”. É o humor negro involuntário que prova que o brasileiro ri até na porta do cemitério.

O Mapa da Sagacidade: Trocadilhos que Vendem
A malícia mineira completa esse mapa com um fôlego invejável. Em Sete Lagoas, o apetite é levado a sério no Xanduixão, onde a grafia reforça o tamanho da fome. Já em Lagoa da Prata, a Bactéria Pastelaria desafia os manuais de vigilância sanitária com um nome que, de tão inusitado, virou ponto turístico da gastronomia local — afinal, se o pastel é bom, o nome é só um detalhe. No esporte, o Guarda Faca Futebol Clube, de Estiva, prova que a rivalidade no campo pede um nome de respeito (ou de alerta).
O Mapa da Sagacidade: Trocadilhos que Vendem

A malícia regional completa esse mapa. Em Minas, entre as igrejas históricas e o conservadorismo de São João del Rei, o bar Bargunça une o caos social ao balcão, quebrando a rigidez das tradições com o abraço da boêmia. Ainda em solo mineiro, na cidade de Passos, o Uai Fai eleva o regionalismo tecnológico ao ápice. No mercado pet, o Cão Boriu em Camboriú e o Tal Pai, Tal Pet em São João del Rei validam o afeto pelos bichos com inteligência fonética.
No setor de madeiras, a “malícia técnica” é a rainha. Seja na Madeireira Pau Grande em Contagem ou na Pau Grosso no Mato Grosso, o diferencial é a honestidade protegida pela lei. Quando o fiscal questiona, o dono aponta para a espessura da viga: “É o produto, senhor”. Esse jogo de palavras cria um cenário onde todos ganham: o dono ganha o dinheiro com o marketing espontâneo e o cliente leva um produto de qualidade garantida pelo nome, transformando uma simples venda de vigas em uma conversa de balcão.
Por fim, Goiânia nos ensina marketing direto com a Sorveteria Gela a Guela e o Bar Se Sobrar Eu Vendo, enquanto Maceió viu o Sanduíche do Careca virar franquia nacional baseada puramente no carisma de um apelido.
Para completar o nosso mapa da malícia brasileira, o setor de hotelaria por hora não poderia ficar de fora. O motel Cê Que Sabe, localizado em Contagem (MG), é o ápice da estratégia do “álibi passivo-agressivo”.
O nome explora a clássica resposta que encerra discussões de casal, transformando a indecisão em destino. A brincadeira é tão eficaz que o fenômeno se espalhou: em uma pesquisa rápida, encontramos unidades com o mesmo nome (ou variações como “Cê que Sabe”) em cidades como Goiânia (GO), São Luís (MA), Itumbiara (GO) e até em Teresina (PI). É a prova de que, quando o cliente diz que “não sabe para onde ir”, o empreendedor brasileiro já registrou o endereço e preparou a suíte.
O Veredito: O Nome é o Destino?
No fim das contas, a diferença entre a SUSEP e a Junta Comercial é a mesma entre um manual de instruções e um livro de crônicas. Um organiza o sistema, o outro dá sentido à vida. O Brasil é essa mistura: uma pitada de juízo, um balde de criatividade e uma vontade imensa de rir da própria sorte. O nome da sua empresa é o primeiro contrato que você assina com a alma do seu cliente. Se ele for bom o suficiente para virar piada, ele é bom o suficiente para virar uma lenda.
A Lição das Calçadas
Neste grande balcão chamado Brasil, aprendemos que a rigidez das normas financeiras serve para guardar o nosso dinheiro, mas é a liberdade das Juntas Comerciais que guarda o nosso espírito. Seja no império de unidades da rede do Seu Toba, no otimismo suaíli do Hakuna Batata ou no renascimento da Sorveteria Sem Nome, a mensagem é uma só: o brasileiro não abre apenas negócios; ele abre sorrisos. O comércio é uma festa onde todos estão convidados — contanto que saibam rir da própria sede e encarar a vida com a leveza de um Hakuna Matata.
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