Bilhões, silêncio e negócios: quando o problema não é o escândalo, e sim o método

Bilhões, silêncio e negócios: quando o problema não é o escândalo — é o método

Bilhões, silêncio e  negócios não surgem do nada. Quando cifras desaparecem, o silêncio se impõe e o crescimento acelerado parece normal, o problema raramente é o escândalo em si — é o método que permite que ele se repita.

Fica claro que quando bilhões somem, o silêncio vale mais do que a verdade. Crescer rápido demais quase nunca é ao acaso. Redes de franquias, negócios e até mesmo bancos mostram que esse crescimento costuma vir acompanhado de desvios — e de respostas que não respondem.

Marcus Valério - Publicitário - Considerado o principal operador
Marcus Valério – Publicitário e foi condenado como o principal operador do Mensalão em 2005 – Foto divulgada na Internet

O Brasil tende a tratar grandes escândalos como acidentes morais: algo que “acontece” porque alguém “errou”. Mas quem vive o mundo dos negócios sabe que nada grande acontece por acaso — nem crescimento acelerado, nem rombos bilionários, nem silêncios bem coordenados.

Dois personagens — ambos mineiros — ajudam a provocar essa reflexão:

Marcos Valério é um empresário e publicitário mineiro que ficou nacionalmente conhecido como operador do escândalo do Mensalão em 2005, esquema que envolveu pagamento de propina a parlamentares e que lhe rendeu uma longa condenação pelo Supremo Tribunal Federal. (O Tempo)

Daniel Vorcaro é o principal articulador do Banco Master
Daniel Vorcaro – Mineiro de Belo Horizonte – Presidente do Banco Master – foto divulgada na internet

Daniel Vorcaro, administrador mineiro, foi o controlador do Banco Master, instituição que enfrentou uma crise de liquidez e foi liquidada pelo Banco Central, com investigações da Polícia Federal por supostas fraudes financeiras envolvendo cerca de R$ 12,2 bilhões — e que o levaram à prisão temporária quando tentava deixar o país. (O Tempo)

Esses casos — muito diferentes em contexto, escala e tempo — compartilham um roteiro conhecido: crescimento rápido, relações profundas, crise, investigação e depois silêncio estratégico.

A reação automática de muitos é procurar monstros. Isso alivia a consciência coletiva — mas também impede a pergunta certa.

Nada do que foi feito apaga o fato de que essas pessoas podem ser bons pais, maridos presentes, e gente querida em seus círculos. Isso não as absolve. Mas humaniza. E humanizar incomoda, porque nos força a abandonar a fantasia confortável de que “isso jamais aconteceria comigo”.

É aqui que entra o velho “afegão médio” — expressão popularizada por Emílio Surita no programa Pânico, da rádio Jovem Pan, para descrever quem consome grandes temas como entretenimento superficial. Para esse público, bilhões são abstração — algo que não cabe no orçamento mental de quem lida com aluguel, folha de pagamento e despesas do dia a dia. Quando os números ficam grandes demais, o pensamento crítico desliga, a crítica vira torcida e o fato vira espetáculo.

O elo entre escândalos, negócios e franquias

Quem vive negócios — especialmente franquias — sabe que o mercado frequentemente elogia crescimento rápido, histórias bonitas e promessas de escala. Mas poucos perguntam com profundidade como aquilo foi construído enquanto parecia funcionar.

No franchising, vemos isso com frequência:

  • Redes que crescem rápido demais e depois quebram.
  • Franqueadores que vendem projeções sem lastro.
  • Franqueados que acreditam em números que não se sustentam.
  • E, quando o castelo cai, sempre há um discurso pronto.

No caso do Banco Master, o “franqueado” era o investidor.
No Mensalão, o “franqueado” era o sistema político.
Nos pequenos negócios, o “franqueado” é o empreendedor que aposta tudo.

A lógica é a mesma. O que muda é a escala do prejuízo e o impacto social.

A parte que realmente dói

Na minha opinião, o sistema precisa de prisões pontuais, silêncios prolongados e, muitas vezes, de algum conforto futuro garantido — não para fazer justiça plena, mas para evitar rupturas que desorganizem o jogo.

Quem fala demais desarruma o sistema.
Quem cala, normalmente atravessa o tempo.

E isso não é teoria conspiratória — é observação histórica repetida em diferentes setores da sociedade.

Onde o leitor entra nessa história

Para nós do Negócio e Franquia, o papel jamais foi entregar conforto intelectual. Nosso compromisso é ligar escândalos a negócios, negócios a franquias e franquias à vida real — não para explicar tudo, mas para forçar o leitor a sair da superfície.

O problema começa quando tudo vira entretenimento.
Quando bilhões desviados são consumidos como série.
Quando crises que impactam milhões viram meme, conversa de bar ou torcida organizada.
Quando o empresário comum acompanha esses fatos como quem assiste uma novela, acreditando que o mal está sempre distante — e personificado em alguém muito diferente dele.

A vida real não funciona assim.

O empresário comum vive com margens curtas, decisões difíceis e pouco espaço para erro. E justamente por isso não pode se dar ao luxo de ser raso. Tratar fatos complexos como espetáculo não é neutralidade — é abdicação de responsabilidade.

Este texto não fecha discussão. Ele cria obrigação.

Ele obriga o leitor a se aprofundar, buscar contexto, desconfiar de explicações fáceis e entender que escândalos não são acidentes isolados, mas sintomas de métodos que se repetem, em escalas diferentes, todos os dias.

Valério e Vorcaro não são entretenimento.
Bilhões não são curiosidade.
Silêncio não é detalhe.

O espelho final

Enquanto bilhões continuarem sendo tratados como fofoca — e não como alerta — o sistema seguirá intacto e confortável para poucos.

Sem heróis.
Sem vilões.
Sem ingenuidade.

E agora a parte que quase ninguém gosta de encarar: sem vontade real de fazer diferença, você se torna cúmplice, mesmo sem ter levado um único centavo dos valores desviados. Porque o ditado é antigo e segue atual: quem cala, consente. E quem não lê, não aprofunda e aceita tudo como entretenimento não é neutro — é complacente.

Talvez o maior erro seja desumanizar os personagens. Transformá-los em caricaturas confortáveis protege — mas também impede o aprendizado.

É hora de humanizar.

Humanizar não é absolver. É aproximar.
É admitir que isso poderia estar acontecendo comigo ou com você.
Que poderia ser eu no lugar de um, e você no lugar do outro.

E então a pergunta deixa de ser moralista e se torna honesta:

Como eu agiria se fosse assim?
Quem estaria ao meu lado?
Quem estaria ao seu lado?
Quem ficaria quando o silêncio vale mais do que a verdade?

Enquanto tratarmos tudo como espetáculo, seguiremos confortáveis na arquibancada, criticando jogadores que jamais entrariam em campo conosco.

O mundo real não muda com aplauso nem com vaia. Muda quando alguém decide sair da plateia. E essa decisão não cabe aos personagens do escândalo. Cabe a você.

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