Se alguém tivesse saído do mercado de franquias em 2022 e retornado apenas agora, durante a ABF Franchising Expo 2026, provavelmente teria a sensação de estar visitando outro setor. As franquias continuam sendo um dos principais motores do empreendedorismo brasileiro, mas a forma de expandir, operar e conquistar consumidores mudou de maneira significativa.
Os números ajudam a contar essa história. Segundo dados divulgados pela Associação Brasileira de Franchising (ABF), o setor faturou aproximadamente R$ 211 bilhões em 2022. Em 2023, o faturamento avançou para cerca de R$ 240 bilhões. Em 2024, alcançou R$ 273,1 bilhões, registrando crescimento de 13,5%. Já em 2025, o franchising brasileiro ultrapassou pela primeira vez a marca histórica dos R$ 300 bilhões, encerrando o ano com faturamento de R$ 301,7 bilhões e mais de 202 mil operações em funcionamento no país.
Os dados são impressionantes, mas talvez a principal transformação não esteja nos números. Ela está nos modelos de negócio que surgiram, nas marcas que ganharam espaço e na forma como os investidores passaram a enxergar o setor.
O fim da era do “quanto maior, melhor”
Durante décadas, boa parte do franchising brasileiro seguiu uma lógica simples: lojas maiores, pontos mais nobres e estruturas mais robustas eram vistos como sinônimo de sucesso.
A pandemia acelerou uma mudança que já dava sinais de acontecer. O consumidor passou a valorizar conveniência, praticidade e experiências mais personalizadas. O empreendedor, por sua vez, começou a buscar operações mais enxutas, com menor custo fixo e maior capacidade de adaptação.
Foi nesse cenário que as franquias home based ganharam força. As microfranquias voltaram a atrair investidores. Modelos compactos, quiosques inteligentes, operações híbridas e negócios altamente digitalizados deixaram de ser exceção para se tornarem parte importante do mercado.
O resultado foi um franchising menos dependente de grandes estruturas físicas e muito mais conectado à eficiência operacional.
Quem apareceu na foto
Se em outros momentos alimentação e varejo dominavam praticamente todas as conversas sobre expansão, os últimos anos trouxeram novos protagonistas.
Franquias de serviços empresariais cresceram de forma consistente. Redes ligadas à saúde, beleza, bem-estar, assistência domiciliar, limpeza residencial, seguros, benefícios corporativos, energia por assinatura e tecnologia passaram a disputar espaço entre os segmentos mais procurados por investidores.
O crescimento não aconteceu por acaso.
Esses setores souberam responder rapidamente às mudanças de comportamento da população. Afinal, o consumidor pode adiar a troca de um celular ou a compra de um móvel novo, mas dificilmente deixa de buscar serviços que tragam economia, segurança, praticidade ou qualidade de vida.
Ao mesmo tempo, surgiram modelos que praticamente não existiam em escala nacional há poucos anos. Mercados autônomos, franquias digitais, operações focadas em inteligência artificial, serviços especializados e negócios baseados em assinaturas passaram a integrar o cardápio de oportunidades do franchising brasileiro.
Nem todo mundo acompanhou a mudança
Como acontece em qualquer mercado, nem todas as marcas conseguiram acompanhar essa transformação.
Redes excessivamente dependentes do fluxo físico de consumidores precisaram se reinventar. Algumas modernizaram suas operações, fortaleceram canais digitais e encontraram novos caminhos para crescer. Outras perderam relevância, reduziram sua presença ou acabaram absorvidas por grupos maiores através de fusões e aquisições.
O franchising dos últimos quatro anos também foi marcado por um intenso movimento de consolidação. Grandes grupos passaram a controlar diversas marcas e segmentos, aumentando a profissionalização da gestão e ampliando o poder de expansão.
O investidor também mudou
Talvez uma das mudanças menos visíveis, mas mais importantes, tenha acontecido no perfil de quem compra franquias.
Há alguns anos, muitos investidores tomavam decisões principalmente pela força da marca. Hoje, a análise costuma ser mais profunda.
Questões como rentabilidade, prazo de retorno, suporte ao franqueado, indicadores de desempenho, presença digital, automação, inteligência artificial e geração de demanda passaram a ter peso decisivo na escolha de uma rede.
Em outras palavras: a marca continua importante, mas sozinha já não garante expansão.
A tecnologia deixou de ser diferencial
Se existe uma palavra capaz de resumir a evolução recente do franchising, ela provavelmente é tecnologia.
Ferramentas de CRM, automação comercial, gestão integrada, análise de dados, atendimento digital e inteligência artificial deixaram de ser diferenciais competitivos para se tornarem requisitos básicos.
Hoje, redes que dominam seus dados conseguem entender melhor seus consumidores, apoiar seus franqueados e acelerar sua expansão. As que ignoram essa realidade correm o risco de ficar para trás.
O franchising ficou mais diverso
Os últimos quatro anos mostraram que o mercado de franquias brasileiro amadureceu.
O setor continua crescendo, mas de forma mais sofisticada. O empreendedor tem mais opções de investimento. O consumidor possui mais canais de compra. As redes estão mais digitais. E os modelos de negócio se tornaram mais variados do que nunca.
As gigantes continuam relevantes. Marcas tradicionais seguem liderando rankings de operações e faturamento. Mas o protagonismo deixou de pertencer apenas aos grandes nomes.
Hoje, existem oportunidades para negócios enxutos, especializados e altamente tecnológicos.
A grande lição desse período talvez seja simples: as franquias que mais cresceram não foram necessariamente as maiores. Foram aquelas que entenderam mais rapidamente as mudanças do consumidor e tiveram coragem de se adaptar.
E se existe algo que os últimos quatro anos ensinaram ao mercado, é que a próxima grande transformação provavelmente já começou.
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